26 de Junho de 2010

A prosa em palavra

Na prosa não há uma métrica clara; não há nem um objeto que admita a ação de escrever. Talvez nem na poesia, mas com certeza é muito visível a transgressão do que se pensa quando se transcreve o pensar em letras organizadas em palavras e frases e parágrafos e no que daí vier. O texto escrito admite subtextos, admite entrelinhas, admite sentido implícito, admite um recado direto. A palavra guardada que vira esse conjunto de frases postas uma a outra tem vida própria. O coração que pulsa numa noite de insônia libera adrenalina para a ponta do seu dedo. Dedos seus são pontes. Escrever é silêncio. É uma forma de não fugir. Juntar as palavras em frases, as frases em parágrafos, os parágrafos em capítulos, tudo isso pulsa na ponte do seu cérebro aos seus dedos. É aí vem a adrenalina. Não uma adrenalina qualquer conseguida de qualquer maneira, mas a adrenalina de algo que se liberta do seu corpo e atinge o íntimo de outros seres. Uns de maneira mais profunda que outros, mas que não mais o atingirá. Palavra é munição, bala certeira no infinito. A palavra é "o quê". O sentido, o "como" já não me pertence. Só resta a quem escreve assistir a devastação (ou o florescer) do que saiu dali.

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